Fim

-Acho que devemos parar por aqui.
-Parar o que?
-A gente.
-Por que?
-Antes que fique bom demais agora...
-...e depois ruim demais
-Isso
-Então tá bom, a gente para

Quantas vezes já não escutei isso? Quantas vezes eu já não falei isso? Escutei o exato mesmo diálogo, com a mesma pessoa, inúmeras vezes, o que muda era quem começava a sentir medo primeiro,quem temia mais a passagem de tempo que era inevitável.

-Mas qual o sentido disso tudo? De se privar de algo tão bom, de algo que te deixa tão feliz, por puro receio de sofrer depois? 
-A única certeza que temos é que daqui a algumas semanas tudo vai acabar, dando tudo certo ou tudo errado, vai acabar. Será que não devemos simplesmente fazer tudo o que temos vontade então? 
-Mas e a dor?
-Eu prefiro evitá-la
-Eu prefiro sofrer no futuro por algo de bom que aconteceu do que não poder aproveitar desse sentimento 
-Eu prefiro que você não se vá

Mais um diálogo que não se cansava de se repetir, mas a conclusão nunca aparecia.

Naquela noite, as muitas horas de conversa, debaixo dos flocos de neve que dançavam levemente pelo céu, não resolveram nada, só dividiram ainda mais o meu coração, só fizeram a dança da neve parecer uma confusão sem rumo, e não mais uma brincadeira.

-Como eu fui deixar isso acontecer? Cuido tanto para não me perder desse jeito.
-E eu então? Tinha prometido que não permitiria isso acontecer de novo.
-E porque você deixou
-Não me faça perguntas impossíveis

Silêncio, por fora, por dentro, um grito incerto.

-Estou eu vou indo
-E como ficamos?
-Do mesmo jeito, perdidos...
-Deixando fluir?
-Deixando fluir.

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