quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Muito sol e cuspida de lhama


Dia 5- 25/12: Copacabana pra relaxar

Fui dormir às 3 da manhã e às 5:00 já estava de pé tentando arrumar minha mochila sem acordar os dois rapazes que dormiam no nosso quarto. As meninas chegaram às 5:30 como dois furacões, arrumando e jogando as coisas na mala (provavelmente a Fernandinha começou a perder roupas a partir daí). Na Bolívia comemora-se o natal apenas no dia 25 e o único ônibus que conseguimos para aquele dia foi às 6 da matina.

Samanta, que viajava sozinha, decidiu se juntar ao nosso grupinho e lá fomos nós, quatro menininhas sonolentas, rumo ao Lago Titicaca. A viagem foi longa, mas muito agradável graças à vista linda.

Chegamos em Copacabana por volta de 13:00 e fomos procurar um hostel. Acabamos achando o La Cupula que era meio caro, mas sem dúvida foi o melhor da viagem em termos de conforto.

Estávamos tão mortas que não nos dignamos a sair da cama até a noite, e só saímos porque a fome pegou pesado. Achamos um barzinho aconchegante e pedimos hambúrgueres e cervejas artesanais da região. Eu tomei uma de mel (nada doce), que foi a melhor da viagem. Na volta pra casa estava muito escuro e deserto. Com muito medo de ficar andando por alí, Fernandinha, a encantadora de cães, conseguiu juntar uma matilha de uns 7 cachorros que foram nos acompanhando até a porta do hostel. Isso que é proteção!
A melhor cerveja da viagem

Dia 6- 26/12: Isla del Sol, do sol MESMO

Saímos às nove do porto de Copacabana ruma à Isla del Sol. Durante a viagem haviam duas temperaturas: quando tinha sol era temperatura de pelar porco, quando tinha vento era de gelar a alma. Foram 2 horas de trajeto com essa variação térmica bizarra.

A Isla Del Sol está dentro do Lago Titicaca e podemos visitar a parte norte e sul do lugar. Começamos pelo norte com uma caminhada bem longa rumo às ruínas incas. A ilha em si é uma gracinha, as casas parecem de filme, as cholitas passam pelas estradinhas de terra carregando suas trouxas coloridas, podemos ver burros, ovelhas, lhamas e porcos por todos os cantos e a vista do lago é incrivelmente linda, parece até mentira, é como se o lugar tivesse parado no tempo.

Chegamos às ruínas incas e foi uma experiência incrível. Estava tudo lá, a pedra de sacrifício, a pedra sagrada e os templos. As portas desses templos foram construídas com o pé direito bem baixo, assim somos obrigados a entrar nos recintos nos abaixando, em sinal de reverência. No fim do passeio pudemos beber água da fonte sagrada. Fafá e Fernandinha ficaram com medo de ter uma diarreia, mas eu e Samanta só queríamos a energia, mesmo que isso nos custasse uma complicação estomacal.

Tínhamos que estar no lado sul da ilha às 16:30 para o retorno ao porto e havia a opção de ir a pé ou de balsa. Desde da desventura no Chacaltaya, Fernandinha queria fazer qualquer caminhada possível pra compensar, então decidimos que iriamos andando, mas a caminhada demorava mais de 3 horas e nós tínhamos menos de duas. Graças a papai do céu não deu tempo porque a volta de 45 minutinhos até a balsa já foi bem tensa.

No lado sul da ilha comemos uma pizza, e eu fiquei atazanando todos os bichos que via pela frente. A minha obra-prima foi quanto convenci Fernandinha a tirar foto com uma lhama. Ela se aproximou um pouco e eu encorajei a ir mais perto, até que o bicho olhou pra ela e mandou uma senhora cuspida de lhama. Eu chorei de rir e fiquei muito satisfeita, afinal, cuspe de lhama é um ponto turístico importantíssimo!!
A lhama que cuspiu na Fernandinha
Mesmo praticamente bebendo protetor solar peguei uma insolação daquelas.

De noite comemos hambúrguer e fomos a um PUB maluco que devia ter umas 10 pessoas (contando com a gente). Acabei me divertindo muito, dancei forró com um brasileiro e gastei meus últimos bolivianos em cerveja.

Dia 7- 27/12: Holla Peru!

Pegamos o ônibus de Copacabana de manhã cedo rumo a Puno. A dez minutos de Copacabana tivemos que passar pela imigração e vi um oficial boliviano pedindo propina na cara dura pra um italiano. Já tinha ouvido falar nisso, mas não acreditei que acontecia de verdade. A entrada no Peru foi bem mais tranquila.Algumas horas depois chegamos em Puno.

Eu estava meio sonolenta quando o ônibus parou e tomei um susto gigantesco quando vi uma boliviana rechonchuda em cima de mim berrando que era pra sair do ônibus naquela hora. Saímos correndo para fazer a troca de ônibus e só eu consegui trocar dinheiro para Nuevos Soles. Compramos uma batata e a taxa de embarque e saímos correndo. Entramos no segundo ônibus e levamos um xingo geral por estarmos atrasando o ônibus. Mas o ônibus não saiu, ainda faltavam 4 argentinos que não levaram xingo nenhum quando entraram. Achei chato.

Pé na estrada
Durante a viagem os argentinos estavam fazendo uma algazarra sem noção, tocando violinha irritante e cantando, mas depois de muito tempo, eu finalmente consegui dormir. Acordei sentindo um cheiro muito forte e com a voz de uma menina que não parava de gritar “Pan! Queso! Pan!”. Tomei um susto quando vi que três mulheres tinham entrado no ônibus e estavam fazendo dele uma verdadeira feira. Uma menina corria de um lado pro outro vendendo pão e queijo enquanto a outra ajudava uma chola que estava cortando um leitão inteiro com uma machadinha, e sim, em pleno ônibus em movimento. Do mesmo jeito inexplicável que a aquilo tudo começou, logo terminou. O ônibus parou e elas desceram na estrada, no meio do nada.

Finalmente chegamos em Cusco, às 21:00, mortas de cansaço. Eu ainda era a única que tinha soles e paguei um taxi até o hostel Pirwa. Nossa reserva era só para o dia seguinte pois adiantamos um dia de viagem, se quiséssemos ficar ali naquela noite teríamos que pagar um rim pra dormir, resolvemos, então, procurar um novo local. Rodamos um bocado e estava difícil encontrar algo graças ao ano novo que lotou a cidade. A mochila pesou e a fome bateu, paramos em um hostel meia boca, mas que era barato e tinha café da manhã incluso (comida de graça é sempre a minha favorita). Resolvemos ficar por ali, mesmo com o banheiro único para o hostel inteiro.

Só faltava agora achar comida. Como eu disse, só eu troquei dinheiro e depois de tanta coisa eu estava com o equivalente a 12 reais no bolso e isso deveria dar para todas nós. Estávamos famintas e fomos perguntar na recepção sobre um lugar aberto e (mega) barato. O cara logo nos disse que nada estaria aberto, ainda mais pelo preço que queríamos pagar. Enquanto discutíamos o que fazer uma chuva torrencial começou a cair, olhamos umas pras outras, suspiramos e fomos comer a bolacha água e sal que estava a três dias em nossas mochilas.

Dia 8- 28/12: Tranquilas em Cusco.

Acordamos bem animadas repetindo o mantra “Hoje descansaremos, nada de ter insolação, de ficar 12 horas sem comer e nem escalar montanhas!”. O café da manhã de graça do hostel foi a alegria do dia e estávamos parecendo retirantes que nunca viram comida.

Saímos do hostel em que estávamos e fizemos check in no Pirwa. Depois fomos passear pela cidade. Na Plaza de Las Armas, a praça principal de Cusco, vimos duas peruanas com roupas típicas, bem coloridas, acompanhadas de uma menininha linda vestida a caráter e três bebês ovelha de chapéu (a gente ficou achando que eram alpacas até uns 3 dias depois disso). Achamos a coisa mais linda do mundo e piramos o cabeção correndo pra encontrá-las. Para nossa surpresa elas ficaram super animadas, já chegaram dizendo “Holla!” e jogando os bebês ovelha em cima da gente. Elas nos abraçaram, fizeram mil poses para foto e a menininha bateu altos papos com a gente. De repente, fecharam a cara, recolheram as ovelhas e começaram a pedir dinheiro, aí eu finalmente entendi o porquê de tanta simpatia. Mas tudo bem, dei uns 4 soles (R$ 4,00) para cada uma, inclusive a criança, e as meninas também deram alguma coisa. Pro meu espanto elas ficaram muito bravas e disseram que era pra cada uma de nós dar 10 soles para cada uma delas, elas queriam 90 soles só pela brincadeira que durou uns 5 minutos. Eu sou super bobona, se estivesse sozinha ia chorar e dar o dinheiro, mas por sorte a Fernandinha e Fafá não caíram nessa e saímos de lá sob o olhar de ódio delas.


Depois de finalmente nos livrar das peruanas, resolvemos fechar o pacote de Machu Picchu. Acho que nem preciso dizer que Machu Picchu é uma das atrações mais importantes desse roteiro né? E, particularmente, sempre foi um sonho meu conhecer esse lugar, acontece que na volta de barco da Isla del Sol conhecemos dois casais de brasileiros que nos apavoraram falando que só tinha como chegar lá de trem, que todos esses trens estavam esgotados e que se conseguíssemos algum, só o trajeto de ida e volta sairia a mais de 200 dólares. Pra ser bem sincera eu era meio burra em relação a esse caminho. Eu sabia que teria que sair de Cusco para Águas Calientes e de lá ir a Machu Picchu, mas na minha cabeça (oca) era só pegar um busão pra Águas Calientes e de lá ir de boa à Machu Picchu. Mas não é assim. Realmente a única estrada para o povoado de Água Calientes é uma linha de trem, e esse trem sai apenas de Ollantaytambo, então teríamos que ir de Cusco de taxi pra Ollantaytambo, depois pegar o trem pra Águas Calientes e só depois ir a Machu Picchu! Praticamente uma jornada épica.

Não bastasse essa complicação para chegar lá, de fato os trens estavam todos cheios e os únicos disponíveis custariam meu corpo inteiro, fora a entrada do parque, alimentação e o resto todo. Eu iria falir ali mesmo, antes do meio da viagem. Pra nossa sorte encontramos pessoas pobres como nós pelo caminho que nos contaram sobre uma trilha “alternativa” que incluía uma van de Cusco até uma certa hidroelétrica e depois uma caminhada até Águas Calientes, e a volta seria trem e van apenas. Achamos um pacote de 107 dólares com alimentação, transporte, hospedagem e entrada do parque. Parecia muito bom, bom demais pra ser verdade.


Tudo resolvido, passeamos mais um pouco e fomos tentar achar um lugar bacana pra festar, mas só achamos lugares bizarros e quando nos vimos em um PUB, com um senhor bem velho, vestindo calça social e tamancos de holandesa amarelos, decidimos que o melhor a fazer era dormir.

domingo, 25 de janeiro de 2015

La Paz: Muito perrengue pra uma cidade só


Dia 3- 23/12: Pelas ruas de La Paz

Acordamos satisfeitíssimas com a soneca de 13 horas e fomos tomar café no próprio Hostel. Ainda no elevador conhecemos três meninas, uma da Bahia, uma americana e uma de Floripa e elas estavam fazendo mais ou menos o mesmo roteiro que a gente. Tomamos café da manhã juntas: ovos mexidos e chá de folha de coca para aguentar a altitude.

Então fomos passear. Estava chovendo muito, usei minha jaqueta impermeável pela primeira vez e descobri que era a melhor coisa que poderia ter levado (usei muitas e muitas vezes depois). Não dava pra andar de sombrinha naquela loucura de cidade, tinha muita barraca, muita chola carregando o mundo nas costas, muita gente! Então fica a dica: jaquetinha impermeável salva vidas, não precisa se importar em ficar feia de capuz (meu caso).

Nossa ideia era ir ao Mercado das Bruxas fazer umas compras, a Fafá inclusive queria comprar uma jaqueta impermeável porque ela usava uma sombrinha que era uma ameaça pras outras pessoas. Saímos do hostel com algumas direções na cabeça e um mapa na mão, o que logo percebemos que não adiantava em nada porque a cidade não fazia sentido nenhum. O pior era o trânsito, uma bagunça! Semáforo é uma coisa que não existe, preferência e faixa de pedestre então nem se fala! O item mais importante do carro de um boliviano, inclusive, é a buzina, sem ela eles não saber dirigir, o cinto de segurança é um mero acessório decorativo (quando existe).

Enfim, fomos passeando pelas ruas lotadas e molhadas de La Paz, perguntando direções e tomando um safanão de uma trouxa de chola vez ou outra. Rodamos muito, subimos, descemos, entramos em mercados de rua que vendiam de tudo, andamos sem parar, até que chegamos... no Loki! Isso mesmo, andamos uma vida pra voltar pro mesmo lugar que partimos! Constatamos então que 1) não entendiamos nada de espanhol e 2) os bolivianos não sabiam dar direções.
Com a cholita que me vendeu um creme suspeito

Acabamos encontrando o tal mercado e de fato valeu muito a pena. Os preços estavam muito bons e as coisas eram lindas demais, bem coloridas e tradicionais. Compramos muito, mais que deveríamos na verdade, mas ainda bem que era só o início da viagem e pensamos que não poderíamos encher nossas mochilas assim de cara. E aqui vai uma dica, nunca aceite o primeiro preço que eles te dão, os vendedores sempre jogam o preço lá no alto e estão acostumados com pechincha. As meninas eram boas pra negociar preço, eu era mais tímida, mas a estratégia de perguntar o preço e fazer cara feia me servia bem também.

Depois das compras fomos fechar o passeio para o dia seguinte. Era um pacote, a montanha Chacaltaya e Valle de La Luna no mesmo dia. Pesquisamos muito, em várias agências de turismo e acabamos escolhendo uma que dizia que as entradas dos parques estavam inclusas, além de um lanchinho, mas, na verdade, era uma mentira bem gorda, só tinha transporte e guia. Aliás, nunca acreditem quando falam em comida na Bolívia e Peru, é mais seguro levar a sua própria porque é uma ilusão, o melhor é pegar a mais barata e mais arrumadinha e pronto. Pagamos 90 bolivianos (30 reais), enquanto os outros que conhecemos depois pagaram 60 (22 reais)

O último passeio do dia foi para o teleférico. Sabe esses teleféricos que tem em algumas favelas do Rio? Então, era exatamente isso, inclusive é um meio de transporte importante para os paceños. Custa 3 bolivianos (R$1,10) cada trecho e escolhemos a linha amarela que era a maior e tinha um suposto mirante no fim. Foi uma experiência bem bacana, mas os nativos não estavam curtindo muito a nossa presença. Mas também, era como se eu estivesse no meu ônibus de todo dia, morta depois do trabalho, e um tanto de gringo entrasse fazendo algazarra, tirando fotos e vestidos de araras dos pés à cabeça (no nosso caso, vestíamos Lhamas dos pés à cabeça). O tal mirante finalmente chegou e descobrimos que na verdade era um espaço entre duas casas no alto de um morro bem feio, bacana né?

O "mirante"
A volta foi uma das coisas mais tensas da nossa viagem. Já estava escuro e todos os taxistas se recusavam a nos levar ao Loki porque era longe demais. Quando finalmente conseguimos um taxi ele nos deixou no lugar errado, uma ruazinha escura e sem ninguém. Falamos na hora que estava errado e ele ficou visivelmente irritado, arrancando o carro logo em seguida. O que se passou então foram quase duas horas dentro do taxi sem a menor ideia de onde estávamos. Não fazia sentido demorar tanto, estava muito escuro e ele passava por ruas muito escuras e estranhas. As meninas nem respiravam e eu tentava formar uma frase em espanhol na minha cabeça que dizia “pode me roubar, mas não me mata!”. De repente vimos uma praça familiar e pulamos pra fora do taxi, falando que a ali estava perfeito, ele cobrou a mais, mas eu juro que nem me importei. Foi bom respirar de novo.

De noite fomos para o bar comemorar o aniversário da Fernandinha. Muita cerveja (quente), muita gente diferente e uma noite sensacional. Eu me lembro de parar por um momento e pensar “Ok, não tem como ser mais feliz que isso”.

Dia 4- 24/12: Um natal diferente

Na véspera de natal acordamos cedinho pra pegar a van às 7:30, mas depois de esperar 1 hora na recepção do hostel descobrimos que todos do passeio foram avisados que sairíamos às 8:30, menos, claro, as três patetas aqui. Quando finalmente entramos na van percebemos que éramos todos brasileiros, a menina de floripa que havíamos conhecido na manhã anterior, Samanta, inclusive.

O caminho para o Chacaltaya foi tenso, muitas curvas em uma estradinha chinfrim, que cabia apenas algo bem menor do que a van em que estávamos. Subimos MUITO. Meu corpo começou a ficar estranho por conta da altitude e a Fernandinha começou a passar mal de imediato. Quando chegamos no pé da montanha ela foi direto vomitar.

Começou, então, a temida caminhada. O lugar era maravilhoso! Branquinho de neve (lembrando que era verão) e com umas montanhas sensacionais ao redor. Logo na primeira subida senti que aquilo não seria nada fácil, eu não conseguia respirar, mesmo com os quilos de folha de coca que tinha mascado pelo caminho, era como se o ar não entrasse nos meus pulmões. A cada 5 passos eu era obrigada a dar uma pausa. Fernandinha, Samanta e outro rapaz do nosso grupo não deram conta e ficaram no pé da montanha. Eu e Fafá seguimos firme, ou quase...pra falar a verdade eu só continuei andando porque estava cagada de medo de ficar sozinha naquela imensidão de neve e me perder.

Então continuamos. A visão ficava escura, a cabeça doía, o enjoo era terrível, mas a gente não parava de subir. Depois de muito custo, a recompensa: uma das vistas mais lindas da minha vida. Havia uma lagoa bem verdinha lá em baixo e ao redor as montanhas das Cordilheiras Real. Lá estava eu, a 5.400 metros de altitude, feliz da vida por ter conseguido conquistar aquilo. Eu fui a primeira a chegar, junto com o guia, e assim que cheguei e vi aquela cena, tudo começou a ser coberto por uma neblina grossa, não deu tempo de fotografar e os outros do grupo não conseguiram ver nada, triste.
A descida: sambando na cara da sociedade











A descida pareceu brincadeira de criança, desci sambando na cara da altitude e durou bem menos tempo que a ida. Resgatamos os enfermos e fomos para o Valle de La Luna.

Eu sinceramente não entendi porque eles fazem esses dois passeios juntos, eles são completamente opostos um do outro. Chacaltaya tem 5.400 metros de altitude enquanto o vale não passa de 3.000. Sem contar que a montanha tinha temperaturas negativas enquanto o vale estava um calor infinito. Meu corpo não entendeu que bagunça era aquela.
O Valle de La Luna é um sítio arqueológico que se assemelha com a superfície lunar. Foi uma caminha de apenas 45 minutos, mas o lugar é bem impressionante. Logo depois retornamos ao Loki.

A turma da van do Chacaltaya,,,
e no Valle de la Luna
Por mais que não parecesse, era véspera de natal, e no hostel iria rola uma festa chamada “Nightmare Before Christmas”, ou pesadelo antes do natal, e foi basicamente isso. As pessoas estavam com os rostos pintados como caveiras, drinks foram incendiados, as pessoas subiam em cima do balcão...nada parecido com as minhas preces de natal em família de todo ano.


Após a festa as meninas foram pra uma boate com o resto do hostel (inclusive funcionários), eu resolvi dormir porque dali a apenas 2 horas teríamos que tomar o ônibus para um novo destino.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Mochilão pela América do Sul- O começo


Eis que, depois de tanto tempo sem passar por aqui, achando que esse espaço ia existir apenas como depósito de memórias, aqui estou eu! Mas dessa vez por utilidade pública ok? (e porque eu gosto de escrever também, mas é segredo). Acontece que acabo de voltar do meu primeiro mochilão e desde que voltei tenho recebido milhões de perguntas sobre a viagem, algumas pessoas pediram, inclusive, o roteiro inteiro que fizemos, portanto, como acho que todo mundo deveria embarcar numa aventura dessas pelo menos uma vez na vida, vou contar tudo que rolou e colocar umas dicas pra quem quer fazer as malas logo. (Ao final de tudo vou fazer um resumo de hostels, gastos e outras coisas práticas).

Tudo começou em julho do ano passado, quando eu estava planejando um mini intercâmbio pra Índia. Eu vi que a passagem estava passando de 5.000 reais e logo percebi que meu salário modesto de estagiária não me levaria tão longe. O sonho de ir pra Índia afundou, mas logo a Fernandinha, minha amiga de faculdade, veio com a ideia de fazer um mochilão pela América do Sul e com a promessa animadora de ser bem barato. Pronto! Topei na hora. Eu já sabia que queria ir ao Peru e achamos um roteirinho bem tradicional, quase batido, mas que seria perfeito pra mochileiras inexperientes como nós: Bolívia, Peru e Chile. Algumas semanas depois, uma outra colega nossa, Ana Flávia (vulgo Fafá), chamou Fernandinha para uma viagem pelo Peru e ao ficar sabendo dos nosso planos se jogou de cabeça na ideia.

Conseguimos planejar toda a viagem em menos de 5 meses, o que nos custou passagens aéreas mais caras, e no dia 21 de dezembro de 2014 partimos com um frio na barriga sem nem ideia do que nos esperaria. 

Dia 1- 21/12/2014: Maratona de aeroportos

Como compramos as passagens bem em cima da hora, tentamos fazer de tudo pra deixa-las mais baratas, o que acabou não adiantando muito. Fomos de Belo Horizonte para Congonhas/SP bem cedo e tivemos que pegar um ônibus até Guarulhos (estávamos de TAM e o transfer era de graça, primeira economia da viagem!!).

Como somos bobonas e medrosas e não sabíamos quanto tempo levaria de um aeroporto ao outro, compramos os vôos com doze horas (!!!!!) de intervalo entre eles. Grande erro, todo o processo entre os aeroportos demorou no máximo duas horas, isso contando pegar malas, esperar uma hora pro ônibus chegar e trajeto, que é de apenas meia hora. Enfim, vivendo e aprendendo. Passamos mais de 10 horas presas em Guarulhos e posso dizer que quebramos tudo. Sabe essas crianças que ficam com energia acumulada por ficarem o dia todo presas no apartamento? Nós estávamos exatamente assim, fazendo corrida de carrinho, comendo bobagem, dançando por ai...Pelo menos deu tempo de comprar a passagem de avião de Santa Cruz pra La paz, não queríamos ir de ônibus porque nos disseram que as estradas eram mortais, só recomendo comprar com antecedência e com muitas horas de intervalo entre vôos, a Bolívia não é tão simples como o trajeto Congonhas-Guarulhos, logo saberão porque.

Dormindo no aeroporto
Finalmente o voo saiu, mas se você pensa que nossa espera acabou, está enganadíssimo. Dez horas e meia de espera em Assunção estavam pela frente, só que dessa vez teríamos que passar a noite. Estávamos com muito medo disso, mas fomos para o segundo andar e vimos que não tinha absolutamente NADA lá, só um grupo de mochileiros dormindo. Fizemos nosso puxadinho e boa noite! Claro que não foi nenhum Spa, acordávamos toda hora com medo de estarem nos roubando ou algo assim, mas nada aconteceu.

Dia 2- 22/12: Finalmente, Bolívia!

O voo até Santa Cruz foi tranquilo, mas a imigração foi uma loucura, que lerdeza meeeeu deus! E pra nada! Nem olharam meu cartão de vacinação que me deu tanto trabalho conseguir. Quando finalmente passamos da imigração veio a surpresa: a receita federal de lá estava fazendo vista grossa. A gente tinha que passar por um portão e apertar um botão, se desse verde poderíamos passar, se desse vermelho toda nossa bagagem seria revistada. A maioria estava saindo vermelho, o que fazia o processo ser ainda demorado. Fernandinha passou: Verde, ufa! Fafá passou: Verde, viva! Minha vez: vermelho, CLARO! Tive minha mala toda revistada e o oficial ficou especialmente intrigado pelos potes de chicletes que eu levava (cada um com seu vício),

Nosso tempo entre vôos era de apenas 2 horas e essa ladainha nos tomou mais de uma hora. Saímos feito loucas pelo aeroporto, equilibrando nossas mochilas gigantes e tentando não matar ninguém pelo caminho, isso tudo pra chegar no check in da Boa airlines e encontrá-lo coalhado de gente em uma fila que não saía do lugar. Graças a papai do céu a à Boa incompetente o nosso voo para La Paz estava incrivelmente atrasado, e ainda esperamos muito na sala de embarque. O aeroporto era um caos e uma de nós três teve a sorte de sentar em uma poltrona que estava molhada de xixi (claro que fui eu).
La Paz

Chegamos em La Paz e percebemos que éramos três antas pantaneiras que conseguiram gastar quase 48 horas para ir a um país da América do Sul, mas o que pegou mesmo foi a tal da altitude. La Paz está a 3.660 metros acima do nível do mar, pra você ter uma ideia do que é isso, BH está a 852 metros de altitude e o ponto mais alto do Brasil está a 2.994 metros, ou seja, La Paz é alto pra burro. Eu sinceramente achei que era balela essa história de sentir mal na altitude, mas assim que pisamos na cidade senti uma enorme dificuldade de respirar, a cabeça parecia mais leve e a mochila parecia mais pesada. Ficamos até mais caladas nos primeiros momentos. Trocamos dinheiro e fomos comer, só aí melhorei um pouco.

A ideia era pegar uma van até nosso hostel, mas fomos avisadas que as vans não iriam até lá, por sorte um motorista super fofo, Hugo, disse que nos levaria por um preço bem camarada e a van seria só nossa.

Pelo caminho a surpresa: La Paz era inacreditável! É literalmente um buraco com MUITAS casas, mas muitas mesmo, e a maior parte delas não tem reboco. Segundo Fernandinha, e ela não parava de falar isso, é porque parece que eles pagam menos imposto assim, já que a casa não é considerada por inteiro. Enfim, além desse mar de casas da mesma cor, ainda tinha uma montanha maravilhosa ao fundo branquinha de neve. Um cenário impensável!
A primeira chola paceña da viagem

Outra surpresa foi encontrar cholas por todos os lugares logo de cara. As cholas são mulheres que se vestem de maneira bem tradicional, conservando suas tradições indígenas. Logo percebemos que cada região tem sua cholita, e as de La Paz são bem características. Saias cheias de babados até os pés, sapatinhos, chale por cima da blusa, tranças e chapéu coco. Eu achava que elas se vestiam para turistas, mas não, elas vivem assim! Se vocês estiver passando pelas estradas da Bolívia e observar as pequenas fazendas, verão as cholas com suas vestimentas coloridas trabalhando no pasto.

Chegamos mortas no nosso hostel, Loki, e ainda tivemos que esperar duas horas pro quarto ficar pronto. Quando finalmente entramos no quarto a ideia era tomar um banho, tirar um cochilo e ir pro bar do hostel. Tomei meu banho, coloquei meu relógio pra despertar às 22:00...e acordei às 8:00 da manhã seguinte.

A vista do nosso Hostel