La Paz: Muito perrengue pra uma cidade só

Dia 3- 23/12: Pelas ruas de La Paz

Acordamos satisfeitíssimas com a soneca de 13 horas e fomos tomar café no próprio Hostel. Ainda no elevador conhecemos três meninas, uma da Bahia, uma americana e uma de Floripa e elas estavam fazendo mais ou menos o mesmo roteiro que a gente. Tomamos café da manhã juntas: ovos mexidos e chá de folha de coca para aguentar a altitude.

Então fomos passear. Estava chovendo muito, usei minha jaqueta impermeável pela primeira vez e descobri que era a melhor coisa que poderia ter levado (usei muitas e muitas vezes depois). Não dava pra andar de sombrinha naquela loucura de cidade, tinha muita barraca, muita chola carregando o mundo nas costas, muita gente! Então fica a dica: jaquetinha impermeável salva vidas, não precisa se importar em ficar feia de capuz (meu caso).

Nossa ideia era ir ao Mercado das Bruxas fazer umas compras, a Fafá inclusive queria comprar uma jaqueta impermeável porque ela usava uma sombrinha que era uma ameaça pras outras pessoas. Saímos do hostel com algumas direções na cabeça e um mapa na mão, o que logo percebemos que não adiantava em nada porque a cidade não fazia sentido nenhum. O pior era o trânsito, uma bagunça! Semáforo é uma coisa que não existe, preferência e faixa de pedestre então nem se fala! O item mais importante do carro de um boliviano, inclusive, é a buzina, sem ela eles não saber dirigir, o cinto de segurança é um mero acessório decorativo (quando existe).

Enfim, fomos passeando pelas ruas lotadas e molhadas de La Paz, perguntando direções e tomando um safanão de uma trouxa de chola vez ou outra. Rodamos muito, subimos, descemos, entramos em mercados de rua que vendiam de tudo, andamos sem parar, até que chegamos... no Loki! Isso mesmo, andamos uma vida pra voltar pro mesmo lugar que partimos! Constatamos então que 1) não entendiamos nada de espanhol e 2) os bolivianos não sabiam dar direções.

Com a cholita que me vendeu um creme suspeito
Acabamos encontrando o tal mercado e de fato valeu muito a pena. Os preços estavam muito bons e as coisas eram lindas demais, bem coloridas e tradicionais. Compramos muito, mais que deveríamos na verdade, mas ainda bem que era só o início da viagem e pensamos que não poderíamos encher nossas mochilas assim de cara. E aqui vai uma dica, nunca aceite o primeiro preço que eles te dão, os vendedores sempre jogam o preço lá no alto e estão acostumados com pechincha. As meninas eram boas pra negociar preço, eu era mais tímida, mas a estratégia de perguntar o preço e fazer cara feia me servia bem também.

Depois das compras fomos fechar o passeio para o dia seguinte. Era um pacote, a montanha Chacaltaya e Valle de La Luna no mesmo dia. Pesquisamos muito, em várias agências de turismo e acabamos escolhendo uma que dizia que as entradas dos parques estavam inclusas, além de um lanchinho, mas, na verdade, era uma mentira bem gorda, só tinha transporte e guia. Aliás, nunca acreditem quando falam em comida na Bolívia e Peru, é mais seguro levar a sua própria porque é uma ilusão, o melhor é pegar a mais barata e mais arrumadinha e pronto. Pagamos 90 bolivianos (30 reais), enquanto os outros que conhecemos depois pagaram 60 (22 reais)

O "mirante"
O último passeio do dia foi para o teleférico. Sabe esses teleféricos que tem em algumas favelas do Rio? Então, era exatamente isso, inclusive é um meio de transporte importante para os paceños. Custa 3 bolivianos (R$1,10) cada trecho e escolhemos a linha amarela que era a maior e tinha um suposto mirante no fim. Foi uma experiência bem bacana, mas os nativos não estavam curtindo muito a nossa presença. Mas também, era como se eu estivesse no meu ônibus de todo dia, morta depois do trabalho, e um tanto de gringo entrasse fazendo algazarra, tirando fotos e vestidos de araras dos pés à cabeça (no nosso caso, vestíamos Lhamas dos pés à cabeça). O tal mirante finalmente chegou e descobrimos que na verdade era um espaço entre duas casas no alto de um morro bem feio, bacana né?

A volta foi uma das coisas mais tensas da nossa viagem. Já estava escuro e todos os taxistas se recusavam a nos levar ao Loki porque era longe demais. Quando finalmente conseguimos um taxi ele nos deixou no lugar errado, uma ruazinha escura e sem ninguém. Falamos na hora que estava errado e ele ficou visivelmente irritado, arrancando o carro logo em seguida. O que se passou então foram quase duas horas dentro do taxi sem a menor ideia de onde estávamos. Não fazia sentido demorar tanto, estava muito escuro e ele passava por ruas muito escuras e estranhas. As meninas nem respiravam e eu tentava formar uma frase em espanhol na minha cabeça que dizia “pode me roubar, mas não me mata!”. De repente vimos uma praça familiar e pulamos pra fora do taxi, falando que a ali estava perfeito, ele cobrou a mais, mas eu juro que nem me importei. Foi bom respirar de novo.

De noite fomos para o bar comemorar o aniversário da Fernandinha. Muita cerveja (quente), muita gente diferente e uma noite sensacional. Eu me lembro de parar por um momento e pensar “Ok, não tem como ser mais feliz que isso”.

Dia 4- 24/12: Um natal diferente

Na véspera de natal acordamos cedinho pra pegar a van às 7:30, mas depois de esperar 1 hora na recepção do hostel descobrimos que todos do passeio foram avisados que sairíamos às 8:30, menos, claro, as três patetas aqui. Quando finalmente entramos na van percebemos que éramos todos brasileiros, a menina de floripa que havíamos conhecido na manhã anterior, Samanta, inclusive.

O caminho para o Chacaltaya foi tenso, muitas curvas em uma estradinha chinfrim, que cabia apenas algo bem menor do que a van em que estávamos. Subimos MUITO. Meu corpo começou a ficar estranho por conta da altitude e a Fernandinha começou a passar mal de imediato. Quando chegamos no pé da montanha ela foi direto vomitar.

Uma pausa pra fotos e pra respirar
Começou, então, a temida caminhada. O lugar era maravilhoso! Branquinho de neve (lembrando que era verão) e com umas montanhas sensacionais ao redor. Logo na primeira subida senti que aquilo não seria nada fácil, eu não conseguia respirar, mesmo com os quilos de folha de coca que tinha mascado pelo caminho, era como se o ar não entrasse nos meus pulmões. A cada 5 passos eu era obrigada a dar uma pausa. Fernandinha, Samanta e outro rapaz do nosso grupo não deram conta e ficaram no pé da montanha. Eu e Fafá seguimos firme, ou quase...pra falar a verdade eu só continuei andando porque estava cagada de medo de ficar sozinha naquela imensidão de neve e me perder.

Então continuamos. A visão ficava escura, a cabeça doía, o enjoo era terrível, mas a gente não parava de subir. Depois de muito custo, a recompensa: uma das vistas mais lindas da minha vida. Havia uma lagoa bem verdinha lá em baixo e ao redor as montanhas das Cordilheiras Real. Lá estava eu, a 5.400 metros de altitude, feliz da vida por ter conseguido conquistar aquilo. Eu fui a primeira a chegar, junto com o guia, e assim que cheguei e vi aquela cena, tudo começou a ser coberto por uma neblina grossa, não deu tempo de fotografar e os outros do grupo não conseguiram ver nada, triste.
A descida: sambando na cara da sociedade

A descida pareceu brincadeira de criança, desci sambando na cara da altitude e durou bem menos tempo que a ida. Resgatamos os enfermos e fomos para o Valle de La Luna.

Eu sinceramente não entendi porque eles fazem esses dois passeios juntos, eles são completamente opostos um do outro. Chacaltaya tem 5.400 metros de altitude enquanto o vale não passa de 3.000. Sem contar que a montanha tinha temperaturas negativas enquanto o vale estava um calor infinito. Meu corpo não entendeu que bagunça era aquela.
O Valle de La Luna é um sítio arqueológico que se assemelha com a superfície lunar. Foi uma caminha de apenas 45 minutos, mas o lugar é bem impressionante. Logo depois retornamos ao Loki.

A turma da van do Chacaltaya,,,
e no Valle de la Luna
Por mais que não parecesse, era véspera de natal, e no hostel iria rola uma festa chamada “Nightmare Before Christmas”, ou pesadelo antes do natal, e foi basicamente isso. As pessoas estavam com os rostos pintados como caveiras, drinks foram incendiados, as pessoas subiam em cima do balcão...nada parecido com as minhas preces de natal em família de todo ano.


Após a festa as meninas foram pra uma boate com o resto do hostel (inclusive funcionários), eu resolvi dormir porque dali a apenas 2 horas teríamos que tomar o ônibus para um novo destino.

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