quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Curiosidades da Dinamarca

Quem me conhece sabe que eu estou sempre falando de certas curiosidades e peculiaridades da vida aqui na Dinamarca, mas a cada dia descubro uma nova e percebo como esse país é especial e estranho ao mesmo tempo. Algumas das coisas que vou colocar aqui eu já falei e outras eu descobri há pouco tempo.

A Dinamarca é um país com menos de 5 milhões de habitantes e tão pequenininha que é possível cruzar o país em menos de 5 horas. E eu viajando 12 horas todo ano para visitar minha vó em Macaubal (SP) ein! O engraçado é que por toda a Dinamarca as tradições são exatamente as mesmas e o comportamento do pessoal também, mas, não sei como, eles conseguiram ter sotaques e dialetos diferentes em cada região, só para complicar a vida da intercambista aqui...

Foto muito antiga com a hostsister. Se você perguntar a
cor do cabelo dela, te responderão: castanho
Todos são loiros? Olha, pra mim, a grande maioria sim, mas pra eles não. Eles acham que poucos são loiros de verdade aqui e que é na Suécia que tem loiro mesmo. Explico, loiro para eles é quase platinado, o que a gente chama de loiro no Brasil aqui chama "leverpostej faver", ou seja, cor de um patê de fígado que eles tem aqui, olha que terror!

Todos tem olhos azuis? Sim, isso sim, se eu vi 3 pessoas com olhos escuros aqui foi muito e essas pessoas eram meu ex namorado que é filho de americano, uma amiga que é filha de africanos e um amigo filho de brasileira, então sim, TODOS tem olhos claros.

Todos tem cabelo liso? Sim! E muito! É hilário ver as meninas tacando mousse no cabelo de cabeça para baixo tentando ter algum voluminho.
Agora me imagine, de cabelo quase preto, enrolado e olhos castanhos no meio dessa galera? Já me perguntaram mais de uma vez se eu tive algum avô ou avó que veio da África, e olha eu sou italiana, então imagina como eles estão mal acostumados né.

         Algumas das várias maneiras de comer Rugbrød
A comida aqui é uma das coisas mais importantes do país, eles só falam de comida, tem uma comida especial para cada época do ano e o jeito que eles comem as coisa é bem definido, por exemplo: todo dia, e eu digo TODO dia mesmo, eles comem um pão bem preto e duro com muitas sementes e colocam alguma  coisa por cima. A regra é: 1 pão, manteiga, alguma proteína e um complemento, mas se você acha que pode combinar qualquer coisa está enganado. Se você quer ovo tem que ser com maionese sal e pimenta, se quer salame também, mas se você quer peixe tem que ser com remoulade (uma coisa amarela daqui) e cebola, mas não é todo peixe que tem cebola e nem todo peixe que pode ser com remoulade, tem um que é com salada de curry...tudo muito complexo, mas você aprende rápido com os olhares de reprovação quando você coloca remoulade no salame.

Exposição do corpo tem outro significado aqui, você nunca vai à praia com biquínis pequenos, mas pode andar pela casa de roupa de baixo, e olha que as calcinhas daqui não são das maiores não! E eles não dormem de pijama, só de cueca ou calcinha, eles falam que não veem o sentido em colocar roupa para dormir. Como eu tive muitos amigos homens aqui e não tem problema dormir no mesmo quarto que eles (taí outra diferença), já perdi a conta de quantas vezes eu me assustei com eles tirando a roupa na minha frente, e eu acho que nunca vou me acostumar, mesmo passando uma semana em um quarto de hotel com outros 5 meninos que dormiam só de cueca todos os dias.

Todo mundo fala inglês aqui, você consegue ter uma conversa fluente com desde um menino de 10 anos até uma senhora de 60, de garis a pedreiros, motoristas de ônibus e caixas de supermercado, todos falam inglês bem.

Abacate se come na salada com sal. Erva doce é para salada, não para o chá. Chá de camomila é coisa de gente doente, nunca tomam esse chá normalmente. A sobremesa é muitas vezes queijo. Cerveja se toma à "temperatura ambiente", nunca gelada. Tomar mais de 5 caneconas de chá em um dia é normal. Tomar uma mega caneca de café logo antes de dormir, também. Eles acham estranho colocar sal na salada.


Por enquanto é só, caso tenham dúvidas é só mandar por aqui ou pelo face :)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vi elsker København


(antes de começar a escrever já vou avisando que se eu ando confundindo Copenhague com Copenhagen esses dias, sei lá porque, e se sair errado aqui não me crucifiquem)

E o quarto fim de semana se foi, aliás, mais da metade dessa minha aventura já está para trás. Não sei se passou rápido ou devagar, só sei em que estou entre a vontade de voltar para o Brasil e vontade de fazer muito mais aqui, ver mais gente, aprender mais, aproveitar o que já tenho...


A semana em si foi normal, como todas que ando tendo por aqui, muitas horas na frente de um computador, muito inglês e dinamarquês, visitas à vovó fofa, cinema com os host pais, jantares, chás, chocolates...o de sempre.
O fim de semana foi anormal e cansativo, como sempre também. Era o último fim de semana da Lú aqui e fui encontrar com ela em Copenhagen e visitar os meus lugares favoritos.

Logo quando cheguei fomos fazer umas compras no supermercado local e quando estava pegando o meu amado Mokai (se você não sabe o que é, não sabe o que está perdendo) encontrei com Awiti, uma antiga colega de sala que mora com a Maya hoje em dia. Resolvemos passar na casa delas e depois as duas foram para o nosso hotel. Ficamos todas sentadas na cama jogando conversa fora, elas tentando me convencer a mudar para a Dinamarca, eu chamando-as para o Brasil.
Só na entrada que pode tirar fotos

Depois fomos até à Christiania. Não sei se já falei desse lugar aqui, mas sempre vale contar mais. Uma espécie de comunidade criada nos anos 70, se eu não me engano, quando algumas pessoas ocuparam uma área abandonada da cidade. A Christiania é considerada uma cidade livre, não é controlada pelo governo dinamarquês e quem administra o local são os próprios moradores em um espécie de anarquia. Eles tem escolas, lojas, restaurantes e tudo mais e vivem muito bem em harmonia, decidindo juntos sobre o futuro da comunidade, respeitando a todos e sem hierarquias. As autoridades dinamarquesas já tentaram acabar com a Christiania diversas vezes, mas sem sucesso, eles são muito organizados e tem muito apoio. Os motivos pelos quais querem acabar com a Christiania são vários, mas principalmente porque eles não pagam impostos e lá dentro a venda e uso da maconha são liberados. No Green Light District você vê as bancas de ervas e cigarros prontos de todos os tipos, vê também pessoas sentadas ao redor de latões cheios de fogo fumando, vê turistas comprando lembrancinhas e os moradores simplesmente indo para suas casas em bicicletas. Há diversos cafés por lá onde é permitido fumar, mas eles não vendem nada com álcool. Outras regras são a de não tirar fotos, não correr (causa pânico) e não é permitido usar e vender certas drogas mais pesadas.

Enfim, fui com a Lú lá porque independente de ser contra ou a favor da maconha eu acho a Christiania um lugar super interessante por sua história e ideologia que vão muito além das drogas. Passeamos um pouco por lá. É um lugar feio e bonito ao mesmo tempo, feio por conta dos latões negros cheio de fogo espalhandos pela praça, da grama meio sem cortar, pelos prédios velhos e escuros, mas muito bonito pelo lago, pela floresta, pelas casa únicas e interessantes, pelas artes nas paredes e muros e principalmente pelas pessoas agradáveis que lá vivem.

Quem não ama esses guardinhas?

Ainda em Copenhague, visitamos Amalienborg, o castelo de inverno da Rainha Margrethe, ou Margarida, como falam no Brasil, ou Dona Margarete, como eu e Lú gostamos de chamar, porque fica parecendo que ela é nossa comadre. A dona Margarete é a rainha mais legal de todos os tempos, não vou falar que ela é simples, nem humilde, porque isso deve ser impossível para uma rainha, mas acho que ela é muito mais próxima do povo do que muita rainha por ai. Ela não anda com muita segurança, visita escolas, está sempre fumando, anda com roupas normais e dizem que ela as vezes atende a porta da própria casa. Eu já a vi 2 vezes nessas minhas vindas à Dinamarca, uma vez, no ano passado, em seu jubileu de 40 anos em que ela apareceu na sacada de Amalienborg com sua família linda e a outra vez, há 3 anos, foi quando eu estava esperando para assistir um ballet no teatro de Copenhagen e todos levantaram de repente e quando vi, era a rainha acenando e sorrindo, indo se sentar no seu lugar para ver o ballet também. Detalhe que na porta não se via nada demais de segurança. 

De volta ao castelo, tiramos muitas fotos, fizemos hora com os guardinhas, a Lú levou um chega pra lá de um quando ela estava em seu caminho e partimos de novo para ver a Igreja de Frederiks, The Opena House e o charmosinho Nyhavn.

Os pontinhos pretos perto da outra ponte são as bicicletas

Outra coisa que fizemos em Copenhague não foi bem em Copenhague, pois resolvemos ir para Malmö, na Suécia, cerca de 25 minutos de trem de Copenhague, mais perto que a cidade que moro agora né! Custou por volta de 40 reais, ida e volta, razoável quando você pensa que é uma viagem para outro país. Eu já tinha ido lá há algumas semanas com a Maya, mas o lugar estava bem diferente. Tinha nevado e o frio estava INSUPORTÁVEL! Tão frio, mas tão frio que o rio da cidade congelou e vimos, não uma, mas duas bicicletas em cima do rio, lá, paradonas, como se fosse em um chão duro e não água. Passeamos um pouco e comemos, mas não aguentamos muito e voltamos para a Dinamarca e seus agradáveis e suportáveis 0 graus.


De noite fomos para um lugar chamado Club Mambo com a minha amiga Camilla. Eu também já estive lá, mas há muito tempo atrás. Cheguei e achei tudo meio estranho porque todo mundo só falava inglês, inclusive os funcionários, mesmo com os dinamarqueses. Logo descobri o porque, devia ter mais latino americano do que qualquer outra coisa naquele lugar. Uma loucura! Uma brasileirada sem fim, coisa que nunca vi igual aqui na Dinamarca. O lugar era tão latino que em uma das pistas de dança só tocava salsa, reggaeton, sertanejo e funk, bizarro. O pior é que dessa vez nem me destaquei com meu rebolado porque tinha gente que dançava mil vezes melhor que eu. Na outra pista de dança estava rolando uma batalha de Hip Hop e foi super bacana de assistir, a galera dançava bem demaaaaaais! Então perceberam que não foi o melhor dia para mostrar os meus talentos né?


O fim de semana acabou rápido demais e acordei na segunda feira às 4:30 da manhã sem acreditar que teria que pegar um trem e estaria na minha cidade dalí a algumas horinhas trabalhando. O dia no trabalho foi longo demais e quando o relógio finalmente marcou 16:00 eu recebi uma mensagem da minha host mãe falando que eu teria que voltar de bicicleta. E lá fui eu, coloquei minha mochilinha de 9kg nas costas, minhas luvas, destranquei minha bike muito magrelinha e parti para os 4km até a minha casa num vento danado. Enquanto estava no meio do caminho, morta, com o rosto gelado, a parte de dentro do casaco pegando fogo, tentando me equilibrar nos bolos de neve, quase caindo com o vendo no sentido oposto e minha mochila pesada, reclamando do meu azar e com pior o humor do mundo, vi um cervo, ainda jovem, pulando assustado do meu lado. Ele me acompanhou por poucos segundos, mas a imagem daquele animal tão lindo e tão gracioso, saltando pela neve até sumir de novo pela floresta me acompanhou até em casa e enquanto trancava a minha magrelinha eu pensava "Eu sou a pessoa mais sortuda do mundo".



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Lá estava eu na cantina, sentada na mesa de almoço, conversando com os únicos dois caras jovens ( e muito bonitinhos) da empresa. Uma conversa super animada sobre boates, cervejas e noitadas começou a se desenvolver e eu, sem nem preceber as pessoas que se sentavam em nossa mesa, comecei a contar mil histórias sobre porres federais e festas loucas. De repente o velhinho sentado ao meu lado começa a rir e eu decido ver quem era..ai, pra que? Era nada mais nada menos que o precidente de toda a Companhia...



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Loucura em Londres


Quinta feira passada:
-Oi mamãe! Tudo bem?
-Oi Luiza, o que foi?
-Nossa, tem mais de uma semana que não nos falamos e você me trata assim?
-Anda minha filha, tô trabalhando!
-Tá! É só pra avisar que esse semana eu vou estar meio incomunicável...é que eu vou pra Londres...
-O QUE? É sério isso Luiza? Não acredito que você vai fazer uma coisa dessa! Você nunca me escuta! Você é muito sem juízo! Você...
-Também te amo mommy, até segunda.
Minha mochila inseparável e euzinha, ainda inteira

E assim, como se fosse uma viagem para a cidade ao lado, eu fui para Londres, ou pelo menos decidi que iria, porque o caminho Copenhage/Londres se mostrou muito mais difícil do que eu imaginava.

Na sexta feira fui com a Lú para o aeroporto e assim que chegamos lá recebemos a notícia de que todos os voos da British Airways estavam cancelados. Muito babado, confusão e gritaria depois, conseguimos um hotel mara (beijos, Hilton) e um voo para a manhã seguinte. Acordamos às 4 da manhã e partimos.

The Houses of Parliament e Big Ben
Eu já tinha ido há londres no ano passado, passei uma semana lá e vi bastante coisa, mas dessa vez eu estava com uma bailarina e não com um jogador de futebol, como da outra vez. No lugar de ir para o estádio do Arsenal, fomos para a Royal Academy of Dance e no lugar de assistir rugby em um Pub cheio de homens, assistimos Onegin no Royal Opera House com nada mais nada menos que o Royal Ballet e Alina Cojocaru. Foi um sonho realizado! O teatro é maravilhoso e tudo é arte pura. Casa LOTADA, com gente de todas as idades e estilos, estava tão cheia que os únicos 2 lugares livres eram em pé, o que não nos impediu de ver o ballet, claro. Foi a coisa mais linda e emocionante que já vi na vida. Eu já assisti o Kirov, o Bolshoi, Ballet nacional de cuba e até o próprio Royal Ballet, mas nunca assim, nunca naquele lugar em que eu sempre via nos DVD's, com as cadeirinhas vermelhas, a orquestra, a cortina gigantesca e os bailarinos maravilhosos. Meu coração assistiu a tudo em capotes e nem percebi que ficara quase 3 horas de pé. 

No domingo acordamos cedinho com a ideia de aproveitar o nosso último dia ao máximo. Saí já com a minha mochila nas costas para não precisar perder tempo voltando no hotel.

Frio na fila
Fomos ao Parlamento, ao Big Ben, Tower of London, Tower Brigde...Enfim, tudo bem turistão e tranquilo. O bixo começou a pegar quando resolvemos ir para a Londo Eye, aquela super roda gigante de Londres. Da última vez que fui a Londres ela estava parada e a Lú queria ir de qualquer jeito, então animei enfrentar a fila. E que fila...Eu odeio esperar, mas odeio mais ainda esperar debaixo de neve com chuva, no frio sem fim, com a mochila nas costas e as meias mais molhadas que o Thames River (isso que dá não ter bota própria para a neve). O que pareceu uma eternidade depois, finalmente conseguimos entrar na London Eye.

Eu não aguentava mais o frio nos pés e, farofeira como sempre, tirei as botas e troquei as meias, alí mesmo, no meio de mais um tanto de turistas, mas não antes sem colocar um plástico para me proteger das próximas poças super gelatas. Sinto muito gente, mas tentem andar com o pé ensopado em um frio de 2 graus nagativos e vocês me entenderão! A volta na roda gigante foi muito bacana e realmente é algo que deve ser feito em Londres, mas nada que eu faria mais de uma vez em minha vida.

London Eye
Depois fomos à Oxford Street fazer compras,mas não aguentamos muito e resolvi que já era hora de ir para o aeroporto, Luiza voltou para o hotel, ela só iria embora no dia seguinte. 

Depois de uma pequena luta para ordenhar 20 librazinhas do meu cartão problemático, finalmente consegui pegar um trem para o aeroporto, mas tive a capacidade de descer no terminal errado, o problema é que o aeroporto Heathrow é gigantesco e não dava para simplesmente andar até o terminal 5, eu teria que pegar um ônibus.

Consegui chegar no terminale fiz o check in, não sei bem que anjinho da guarda que fez isso, mas acabei caindo na primeira classe e poderia aproveitar do lounge executivo da British Airways.

Eu, sempre comprando as passagens mais baratinhas, nunca tinha visto a área VIP do aeroporto e fui correndo dar uma olhada no tal Louge. Não acreditei quando vi. Era um lugar enorme com um monte de computadores, TVs, Video Games, almofadas em um canto, um bar enoooorme como todos os tipos de bebida finas que você pode imaginar em outro, uma super maquina de cafés, chás, chocolate quente e tudo mais e bem no meio um buffet super rico com saladas, massas, sandwiches, queijos, pães, bebidas e muuuuitos vinhos. Eu fiquei até meio receosa de aproveitar tudo, meio jeca da minha parte, mas não acreditava que TUDO aquilo era "de graça". Não conseguia acreditar na minha sorte e relaxei achando, ingenuamente, que os meus problemas estavam no fim, mas não foi bem assim.


Esperei um tempo ali e fui pra sala de embarque, fiquei quase uma hora esperando a chamada do voo, até que finalmente ouço a voz no microfone, mas ao invés do convite para o embarque o que ouvi foi: Boa noite senhoras e senhores, a aeronave já está em solo e os comissários estão à postos para o voo, mas não temos pilotos disponíveis para o momento e não sabemos quando teremos.


Como assim? Isso existe? Sem previsão de partida? Dei a notícia para os meus Host pais e logo veio a mensagem "acho que você terá que dormir em Copenhagen hoje, não tem mais trens para Fyn essa noite" Maaaaaravilha ein!


Fiquei revoltada! Voltei para o louge e comi/bebi tudo que podia e ainda roubei altas batatinhas e cookies, como se eu estivesse dando uma lição na fanfarrona da British Airways que me deixara na mão pela segunda vez em um mesmo fim de semana. A medida que as horas passaram a raiva se transformou em desespero, primeiro porque eu não sabia onde dormir aquela noite e segundo por ter que trabalhar bem cedo no dia seguinte e terceiro por estar tão cansada. Chorei feito um neném, sozinha, sem rumo, sem lugar para dormir, sem dinheiro, com frio e num país em que ninguém falava a minha língua.

Derrotada

Conversei com alguns amigos pela internet e eles me acalmaram, Daniel, meu antigo colega de sala, disse que eu poderia dormir na casa dele e eu me acalmei mais um pouco, mas me acalmei de vez quando percebi que o desespero só ia piorar a minha situação, que eu não podia fazer mais nada e que a única coisa que eu tinha pra fazer ela relaxar e esperar.

O voo finalmente saiu e eu finalmente cheguei à Copenhague, com 5 horas de atraso. Já eram 3 da manhã e como eu teria que pegar o trem às 5:30 do dia seguinte resolvi tirar um cochilo nos bancos do aeroporto mesmo. 

Acordei toda amassada, lavei o rosto, peguei o trem e parti para mais um dia de trabalho, como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um pouco de Brasil na minha Dinamarca


Meu segundo fim de semana passou voando, mas trouxe um pouquinho do Brasil para mim, não me deixando tão imersa nessa minha segunda vida e me lembrando do que deixei pra trás. Minha amiga Luiza chegou no sábado de tarde para me visitar e fui buscá-la no aeroporto. Foi a coisa mais esquisita do mundo poder falar minha própria língua depois de mais de uma semana falando tudo, menos português. Perdi a conta do número de vezes que comecei uma frase em inglês e ela olhou pra mim sem entender porque eu estava estranha.
Depois de comer, pegamos o trem para Valby, onde uma amiga minha mora, e andamos MUITO pra chegar, porque eu estava perdida e não sabia chegar no bendito prédio. Neve demais e peso demais, quase matei a pobre coitada da Luiza, mas chegamos. Essa minha amiga é a Camilla, ela era minha vizinha na segunda família do meu tempo de intercambista, e além de ser um amor de pessoa, ela tem uma paciência de Jó porque animava passar chapinha no meu cabelo (super volumoso e super duro) toda vez que a gente saía, como não amar né?

Íamos sair para uma boate mais tarde e começamos a beber. Eu já sabia que os dinamarqueses bebem mais que a gente, mas fiquei chocada quando resolvi medir o quanto a mais que eles bebem. Comecei a comparar o que eu bebia com a Camilla, a Lú não podia entrar na competição porque tava sofrendo com o jetlag, coitada. Eu bebi uma latinha de cidra, depois 3 de cerveja e um copo de Bacardi com suco. Ela bebeu Uma garrafa de champagne inteira, 2 cidras, 3 copos de Bacardi com suco, mais o resto quando eu parei de contar. Fígado viking, ou o que? E quero deixar bem claro que eu não sou mulherzinha pra bebida não ein!


Saímos e eu tive a brilhante ideia de ir de short, camiseta de alcinha, casaco e mais nada... Só retardo mental explica! Devia estar uns 2 graus negativos e eu juro que nunca senti tanto frio em toda minha vida, parabéns pra mim.


A boate era ok, eu já ido lá, pagamos pouco mais de 50 reais e era open bar, o que foi bom e ruim ao mesmo tempo. Bom porque open bar é sempre bom, e ruim porque a bebida de graça foi uma arma e tanto para as meninas que detestaram a ideia de ter duas brasileiras no território delas. Parece que todo mundo meio que se conhecia naquele lugar, era uma boate pequena, e a notícia da chegada das intrusas se espalhou rápido demais. Todas as meninas olhavam meio torto pra gente, e AI do menino que olhasse também, ou ele levava um empurrão ou eu. Se ele viesse conversar então eu era alvo de ódio mortal, teve até uma hora que um menino que já estava ficando com uma menina veio falar comigo e que me rendeu um drink inteirinho jogado no meu cabelo. Biscates alto nível né? Pelo menos a vodka era Absolut.


A boate não rendeu muita coisa boa, mas mesmo assim chegamos em casa depois das 5 da mnhã. Acordamos destruídas no dia seguinte e eu e Lú fomos encontrar com um amigo (ou O amigo :p), porque ele tinha marcado de me mostrar algumas coisas da cidade já há algum tempo. Andamos muito, MUITO mesmo, e olha que eu gosto de andar, mas foi meio demais pra mim. Ele nos levou na casa da orquestra real onde assistimos uma apresentação de piano e voz, depois passeamos pelo parque, pelas ruas do bairro dele, tomamos um chocolate quente delicioso, fomos a um museu, compramos comida italiana e terminamos o dia na casa dele comendo o melhor macarrão que eu já comi na vida, bebendo vinho e conversando. 


Segunda acordamos cedo, guardamos as malas na Estação Central e fomos às compraaaaas! Quase nada estava aberto, as coisas abrem por volta de 10:00, se não mais tarde, e fecham super cedo, uma tristeza. Ficamos andando pelas ruas vazias até que ví uma mocinha perguntando alguma coisa para as pessoas na rua. Quando ela me viu, para o meu pânico, veio em minha direção e eu fiz cara feia porque detesto esse povo que fica tentando te enfiar alguma coisa doida para você comprar, mas ela abriu um sorriso e disse:


-Quer nos ajudar a abrir a loja da Disney?

Minha cabeça super adulta e centrada falou que aquilo era uma bobeira sem fim, mas como eu nunca escuto essa chata eu respondi com o maior sorriso do mundo:
-Claaaaaro!

Fizeram o maior teatro, as arvores começaram a piscar, a música começou a tocar, falaram da magia da loja, dos personagens, da minha princesa favorita (Bela, sempre), bateram palmas, fizeram UHUL e me deram uma chave verde enoooooorme para que, no final da contagem regressiva super animada, eu pudesse abrir a loja. Bando de doidos, mas eu amei!


Passamos o resto da manhã pelas ruas e de tarde voltamos para a minha cidade, onde a Luiza pode ver como moro no meio do nada e como é o nada mais lindo desse mundo.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Legítima dinamarquesa

Nem acredito que esse foi apenas a minha segunda semana aqui, me sinto como se já estivesse aqui há meses, as coisas que acontecem e aconteceram no Brasil me parecem tão distantes que é como se a única vida que eu tivesse fosse essa aqui, nesse frio, comendo essa comida deliciosa, conversando com essas pessoas maravilhosas e sendo nada além de mim mesma. Sim, porque eu sou diferente aqui do que eu sou no Brasil, não sei explicar bem porque, mas parece que as tradições, os costumes e o modo de agir dos dinamarqueses já me sõ tão familiares que eu me sinto parte disso tudo e acabo agindo como eles.

Passei a semana passada toda imersa nesse mundo dinamarquês. Trabalhei o dia todo e convivi com pessoas bem mais velhas que eu, bem diferentes, mas que me faziam sentir parte da empresa, como nunca imaginei que seria possível. Conversei com pessoas do Peru, Chile, Argentina, Uruguay e Brasil, almocei todos os dias em uma mesa lotada de executivos super sérios, mas que pareciam crianças quando ouviam as minhas histórias sobre o Brasil, fui meu supervisor foi sempre muito rígido, mas também fez uma pausa do trabalho duro para tirar fotos minhas na neve, falei inglês, dinamarquês e espanhol, aprendi sobre taxas, tributos, leis do mundo todo e contactei importadoras...será que virei gente grande?


Também passei muito tempo na companhia da minha família nos jantares deliciosos e os chás de sempre. Eu não sou mais a intercambista que estava alí perguntando tudo sobre a Dinamarca, agora sou parte da família, e peço conselhos de trabalho para o meu pai, conto das minhas angústias para minha mãe e converso sobre garotos com a minha irmã.


Além da minha vidinha cotidiana e rotineira, tive o meu primeiro encontro dinamarquês de verdade. Tomei um susto quando o menino disse que iria despencar de uma outra cidade, há mais de uma hora da minha casa, só para me buscar, me levar pra jantar, me deixar em casa de novo e voltar dirigindo para no meio da noite. Achei bizarro, de um jeito fofo, claro, um cara viajar para ter algumas só algumas horinhas comigo, que não sou nada dele, e nem vou ser porque em breve volto pro meu país. Contei a história para minha irmã, chocada, e ela não me pareceu muito assustada, disse que os meninos daqui fazem isso mesmo, se não mais, por uma menina com quem quer conversar e mais nada. Chocada, e chateada que no Brasil as coisas não são bem assim, eu resolvi ir no encontro.


Ele veio direto do trabalho e saímos para um café muito charmoso. Passamos mais de 5 horas lá, conversando sobre tudo, rindo terrores e quase não comemos. Depois a volta pra casa, que deveria durar uns 20 minutos, durou mais de uma hora. Ele parava o carro o tempo para apreciar a neve hipnotizante que não parava de cair, parecíamos duas crianças, falando todo o tipo de bobagem enquanto aqueles flocos brancos enormes dançavam pela escuridão infinita.


No dia seguinte acordei destruída de sono, mas muito feliz, não apenas pelo encontro, pelo trabalho ou pela minha família, aquela felicidade toda era pela certeza que eu tenho uma nova vida, uma nova identidade que já me é muito confortável. Pros lados de cá não sou mais Luiza Padovezi, a estudante de direito e bailarina nas horas vagas, na verdade sou a segunda filha, a primeira estagiária, a intercâmbista que voltou, a única amiga estrangeira,  sou, na verdade, a brasileira mais dinamarquesa que eles já conheceram.





terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O meu primeiro dia no meu primeiro emprego


Acordei as 6:30 da manhã com Birgitte batendo à porta "God morgen Luiza!". Ahhh se eu soubesse mais palavrões em dinamarquês! Parecia que eu não tinha dormido nada, parte pelo nervosismo que não me deixou dormir e parte por ainda estar completamente escuro do lado de fora (aqui o sol nasce quase as 9 da manhã), mas não dava tempo de reclamar, afinal, era o meu primeiro dia no meu novo estágio na Mac Baren.

Mac Baren Tobacco Company é uma empresa bem tradicional que produz tabaco para cachimbo, de enrolar, para mastigar e narguile (nham nham). Tem mais de 120 anos e eles são cheios dos frufrus com suas produções e tradições, mas é uma empresa de muito prestígio e respeito que exporta para o mundo todo. Eu consegui esse estágio por intermédio do Rotary e trabalho na área de exportações direcionadas para América do Sul, não me pergunte o que exatamente eu tenho que fazer porque eu ainda não descobri.

Enfim, me arrastei da cama, comi minha aveia de todos os dias e fui com meu host pai para a empresa. Chegando lá vi um monitor com a tela branca e o escrito em preto. Queria muito passar horas ali tentando decifrar o dinamarquês daquela telinha, mas tudo que consegui ler foi "A partir do dia 8 de janeiro ao dia 15 de fevereiro teremos uma nova estagiária: Luiza Padovezi do Brasil." , o resto do texto poderia muito bem estar orientando todo mundo a me zoar sem parar e imitar macacos perto de mim, mas meu pai apressadinho me puxou pra recepção e pelo jeito que a recepcionista olhou para mim ela já sabia quem eu era.

Me levaram para minha sala, eu tenho um computador, um telefone, um monte de post its, muitas canetas e uma caixa de BALAS!!
O dia começou bem lento, li algumas estatísticas, aprendi algumas coisas sobre a empresa e me adaptei com meu novo email da empresa (sim, com @mac.baren.com e tudo mais!). Depois acelerou, o coordenador da minha área, Simon me chamou pra conversar e me deu a minha primeira tarefa, e que tarefa!! Pesquisar as taxas de importação, VAT, GDP, mercado de tabaco e mais um tanto de coisa louca de casa país da América do Sul. Preciso falar que não terminei nem metade? Outra coisa que tive que fazer foi entrar em contato com os importadores para falar que eu estava ali e que eu falo espanhol (mentira pura).

Per Jensen, meu guia na fábrica
O dia passou rápido e todos foram muito atenciosos comigo. Me deram muito chá, me apresentaram a super fabrica de tabaco, conversaram sobre tudo e foram uns amorzinhos o tempo todo, o único problema foi voltar pra casa e escutar dos meus pais o quanto eu fedia a cigarro e perceber que vou ter que lavar meu cabelão todo santo dia...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Voltei!

Sim, menos um ano depois eu estou de volta ao país que achei que não veria novamente em anos, mas, quem diria, as voltas da vida iam me trazer para esse pequeno país mais uma vez como um intercambista do Rotary.

Destino, sorte, coincidência, não sei ao certo o que foi que me trouxe de volta, mas fato é que o meu plano inicial era ir para a Turquia pelo Rotary e quando estava prestes a comprar minha passagem meu intercâmbio foi cancelado. Começaram a procurar novos lugares, mas como já era fim de Outubro eu não tinha muita esperança. até que veio a notícia, haviam achado um lugar, e APENAS um lugar. Uma terrinha pequena no norte da Europa; Dinamarca cruzava meu caminho mais uma vez!

Então voltei para o mesmo país, e, graças aos contatos anteriormente cativados, para a mesma cidade e a mesma amável primeira Host Family na pequenininha Vester Skerninge.

Uma semana já se passou e um engraçado sentimento de conforto e calmaria me ocupou, como se essa fosse a minha segunda casa, como se esse país tão distante do Brasil já fosse meu, como se essas pessoas, essas ruas, esse mar, essa comida não estivessem a muitos e muitos quilômetros de casa, mas sim, sempre comigo.

Passei o fim de semana em Copenhague para fugir da calmaria da minha vila. Fui direto para o apartamento de Maya onde encontrei também Julie e Sophie, que primeiro me cumprimentaram  como se nada para só depois perceberem que não me viam há anos e pular no meu pescoço de novo. Conversamos por horas.

Na sexta fui para casa de Mathias, uma antiga quedinha minha dos tempos de Oure. Lá estavam Daniel, Lauge, Awiti e Christina, além de Maya, eu e Mathias, claro. Cozinhamos, bebemos, jogamos trívia  dançamos... fiquei lá de 4 da tarde até 6 da manhã sem me dar conta do tempo que passava, só percebi quando o sono bateu e lembrei que tinha que ir de bicicleta para casa.

Sábado dei um pulinho da Suécia por algumas horas, como se não fosse outro país. Estávamos comendo em um café quando de repente escutei uma bateria tocando samba, meu sangue latino gritou e sai correndo com Maya para  ver o que era. Vimos um grupo super animado tocando tambores vigorosamente e começamos dar uns passinhos tímidos. Uma das meninas do surdo me viu e me chamou pra dançar, hesitei, mas o menino do repinique veio ate mim, pegou na minha mão e me chamou pra dançar. Não precisou falar duas vezes. Fomos pro meio da roda e começamos a sambar feito loucas. Naquele momento tudo parecia certo, a tarde não parecia mais tão escura, o ar não parecia mais tão gelado e eu não me sentia tímida de estar diante daquela monte de gente que nunca tinha visto em minha vida, que alegria!

Voltamos de Malmo, me reencontrei com a mãe do meu ex namorado dinamarquês por algumas horas e saí para dançar com os dinamarqueses.

Agora estou de volta à minha vilinha, nesse mesmo sofá. na frente da mesma TV, com as canequinhas de chá por perto e meus host pais sentados no mesmo lugar de sempre. Mas mesmo parecendo tudo tão igual, eu me sinto diferente, não sou mais a jovem intercambista, não sou mais a namorada do Benjamin, sou Luiza, a brasileira, a amiga, a viajante, a estudante de Direito e amanhã? Bom, será meu primeiro dia no primeiro emprego de verdade da minha vida! VI SES!