Legítima dinamarquesa

Nem acredito que esse foi apenas a minha segunda semana aqui, me sinto como se já estivesse aqui há meses, as coisas que acontecem e aconteceram no Brasil me parecem tão distantes que é como se a única vida que eu tivesse fosse essa aqui, nesse frio, comendo essa comida deliciosa, conversando com essas pessoas maravilhosas e sendo nada além de mim mesma. Sim, porque eu sou diferente aqui do que eu sou no Brasil, não sei explicar bem porque, mas parece que as tradições, os costumes e o modo de agir dos dinamarqueses já me sõ tão familiares que eu me sinto parte disso tudo e acabo agindo como eles.

Passei a semana passada toda imersa nesse mundo dinamarquês. Trabalhei o dia todo e convivi com pessoas bem mais velhas que eu, bem diferentes, mas que me faziam sentir parte da empresa, como nunca imaginei que seria possível. Conversei com pessoas do Peru, Chile, Argentina, Uruguay e Brasil, almocei todos os dias em uma mesa lotada de executivos super sérios, mas que pareciam crianças quando ouviam as minhas histórias sobre o Brasil, fui meu supervisor foi sempre muito rígido, mas também fez uma pausa do trabalho duro para tirar fotos minhas na neve, falei inglês, dinamarquês e espanhol, aprendi sobre taxas, tributos, leis do mundo todo e contactei importadoras...será que virei gente grande?


Também passei muito tempo na companhia da minha família nos jantares deliciosos e os chás de sempre. Eu não sou mais a intercambista que estava alí perguntando tudo sobre a Dinamarca, agora sou parte da família, e peço conselhos de trabalho para o meu pai, conto das minhas angústias para minha mãe e converso sobre garotos com a minha irmã.


Além da minha vidinha cotidiana e rotineira, tive o meu primeiro encontro dinamarquês de verdade. Tomei um susto quando o menino disse que iria despencar de uma outra cidade, há mais de uma hora da minha casa, só para me buscar, me levar pra jantar, me deixar em casa de novo e voltar dirigindo para no meio da noite. Achei bizarro, de um jeito fofo, claro, um cara viajar para ter algumas só algumas horinhas comigo, que não sou nada dele, e nem vou ser porque em breve volto pro meu país. Contei a história para minha irmã, chocada, e ela não me pareceu muito assustada, disse que os meninos daqui fazem isso mesmo, se não mais, por uma menina com quem quer conversar e mais nada. Chocada, e chateada que no Brasil as coisas não são bem assim, eu resolvi ir no encontro.


Ele veio direto do trabalho e saímos para um café muito charmoso. Passamos mais de 5 horas lá, conversando sobre tudo, rindo terrores e quase não comemos. Depois a volta pra casa, que deveria durar uns 20 minutos, durou mais de uma hora. Ele parava o carro o tempo para apreciar a neve hipnotizante que não parava de cair, parecíamos duas crianças, falando todo o tipo de bobagem enquanto aqueles flocos brancos enormes dançavam pela escuridão infinita.


No dia seguinte acordei destruída de sono, mas muito feliz, não apenas pelo encontro, pelo trabalho ou pela minha família, aquela felicidade toda era pela certeza que eu tenho uma nova vida, uma nova identidade que já me é muito confortável. Pros lados de cá não sou mais Luiza Padovezi, a estudante de direito e bailarina nas horas vagas, na verdade sou a segunda filha, a primeira estagiária, a intercâmbista que voltou, a única amiga estrangeira,  sou, na verdade, a brasileira mais dinamarquesa que eles já conheceram.





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